JOSÉ ROBERTO BEZERRA DE MEDEIROS

  

Vida e Obra de José Roberto Bezerra de Medeiros

Raras são as trajetórias que conseguem harmonizar, com igual maestria, o rigor da ciência e a sensibilidade da memória. A vida de José Roberto Bezerra de Medeiros, engenheiro e genealogista, ergue-se como um testemunho dessa potente síntese entre progresso e tradição. O texto que se desdobra a seguir constitui, portanto, uma análise crítico-literária, dedicada a perscrutar como o homem que iluminou cidades com a luz da técnica foi o mesmo que resgatou, com a chama da pesquisa, a ancestralidade de sua gente.

No coração do Seridó, onde as pedras guardam silêncios seculares e os rios sertanejos desenham caminhos de permanência, nasceu em 1957, na cidade de Caicó, José Roberto Bezerra de Medeiros.

Desde cedo sua vida se teceu como trama desafiadora, unindo o rigor da engenharia e da liderança executiva à delicadeza paciente da pesquisa histórica e genealógica. Um homem que, ao mesmo tempo em que iluminou cidades com a energia do progresso, dedicou-se também a acender na memória coletiva a chama da ancestralidade.

Filho de Manoel Ageu de Medeiros e Darcy Dalva Bezerra de Medeiros, herdeiro das tradições de José Ageu de Medeiros e Maria Elpídea de Medeiros, bem como de Daniel de Abreu Bezerra e Olava Bezerra de Medeiros, José Roberto cresceu enraizado nas histórias de sua gente.

Em 1982, ao unir-se a Ana Lúcia Dantas de Medeiros, na Igreja de Santa Terezinha do Tirol, em Natal, perpetuou essa herança em nova geração. Deste enlace nasceram três filhas — Analu, em 1984; Aline, em 1987; e Alice, em 1994 —, continuidade viva de uma linhagem que atravessa o sertão com a força da tradição.

Sua formação escolar começou no Grupo Escolar Senador Guerra e no Externato Dom Bosco, em Caicó. Mais tarde, buscou horizontes técnicos: em 1973, cursou o Colégio Técnico de Química Industrial, em Campina Grande, e, entre 1974 e 1975, concluiu os estudos secundários no Colégio Winston Churchill, em Natal. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte o acolheu entre 1976 e 1980, quando se graduou em Engenharia Elétrica, já moldado pela disciplina do estudo rigoroso.

Em paralelo à vida acadêmica, a experiência militar lhe ofereceu ainda outro tipo de forja. Em 1976, no Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, destacou-se como primeiro colocado de sua turma de Aspirantes a Oficial, feito registrado com louvor no Boletim Interno do 16º Batalhão de Infantaria Motorizado. Essa mescla de ciência e disciplina, de cálculo e ordem, seria a base sobre a qual ergueria sua carreira.

O setor energético tornou-se, então, o palco de sua obra técnica. Em 1980, ingressou na Companhia Energética do Rio Grande do Norte (COSERN), onde, ao longo de mais de duas décadas, escalou degraus de responsabilidade até alcançar a presidência, que exerceu de 2003 a 2014.

Reconhecido pela competência e pelo rigor, assumiu em seguida, entre 2014 e 2017, a presidência da Companhia de Eletricidade da Bahia (COELBA), levando sua marca de liderança a uma das maiores distribuidoras do país. Sua ascensão, construída sem atalhos ou nomeações políticas, foi sustentada pela autoridade do saber técnico e pela firmeza ética de sua gestão.

Mas, se por um lado iluminava cidades, por outro voltava-se ao trabalho silencioso de desvendar raízes. Pesquisador incansável, José Roberto voltou-se à genealogia como quem retorna ao leito original de um rio. Sua obra maior, Famílias Pioneiras dos Açores e do Seridó, publicada pela Gráfica Eskenazi, ergue-se como referência para descendentes de judeus sefarditas em busca de cidadania portuguesa.

Mais que manual, o livro é mapa da memória, registro minucioso da ancestralidade de patriarcas como Rodrigo de Medeiros Rocha e Sebastião de Medeiros Mattos, e testemunho da ascendência sefardita de sua própria família e de tantas outras que povoaram o sertão.

Críticos e leitores reconheceram no livro seu maior mérito: a capacidade de estruturar com clareza linear um campo marcado por dispersões. Não sendo historiador de ofício, soube, ainda assim, dar ordem e cronologia a uma herança difusa, construindo narrativa que faltava à historiografia regional. No vaivém dos documentos, na ordenação dos nomes e das datas, deu corpo ao que o Seridó guardava apenas em fragmentos de memória oral.

Seja como engenheiro que deu energia a milhões, seja como autor que restituiu à história a voz de antepassados, José Roberto recebeu o reconhecimento de sua terra. Em 2004, foi-lhe concedido o título de Cidadão Mossoroense, e, em 2007, o Diploma de Mérito Alferes Tiradentes, pela Academia Brasileira de Odontologia Militar. Distinções que não apenas honram sua trajetória, mas também simbolizam o duplo fio que a tece: técnica e memória, progresso e tradição.

A vida de José Roberto Bezerra de Medeiros é, assim, a de um homem ponte. Entre o cálculo das usinas e a poesia das árvores genealógicas, entre a disciplina do comando e a sensibilidade do registro histórico, ergueu um legado que é, ao mesmo tempo, desenvolvimento e lembrança, luz elétrica e chama ancestral.

No coração do Seridó, seu nome ecoa como testemunho de que é possível unir ciência e memória, progresso e raízes, técnica e poesia — sem jamais trair a essência do lugar de onde se veio.

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