IVANALDO BEZERRA

 

A Arquitetura da Saudade: Uma Análise Ensaística de "Acari, Anos 40"

 

O livro, intitulado "Acari, Anos 40", foi escrito por Ivanaldo Bezerra de Araújo Galvão. O subtítulo, "Minha Raiz, Meu Berço, Minha Referência", sugere que a obra é um projeto pessoal focado na nostalgia e nas memórias de infância. O texto da contracapa e a "Apresentação" confirmam que o livro é uma coleção de lembranças da cidade de Acari, no Rio Grande do Norte, concentrando-se nas experiências do autor e de sua família durante os anos 40. O autor descreve a obra como a concretização de um desejo de registrar as emoções e a vida na infância em Acari, prestando uma homenagem à sua esposa, filhos e netos, e agradecendo a contribuição de sua irmã Inalda na revisão do texto.

 

A obra "Acari, Anos 40" de Ivanaldo Bezerra de Araújo Galvão emerge no panorama da literatura brasileira como um exemplar delicado e potente da literatura de memória.

 

Mais do que um simples registro pessoal, o livro se apresenta como um microcosmo da vida no Sertão do Seridó durante uma década de profundas transformações, oferecendo ao leitor um afresco sentimental de um tempo e um lugar específicos.

A tese central deste ensaio é que a obra transcende a simples nostalgia para se constituir como um projeto deliberado de construção de identidade e preservação cultural, no qual o autor atua como um verdadeiro arquiteto de suas próprias recordações.

 

O subtítulo que acompanha a obra, "Minha Raiz, Meu Berço, Minha Referência", não é um mero adorno, é por assim dizer a declaração de princípios que revela a relação indissociável entre o espaço, o tempo e a formação do eu.

 

É a partir dessa fundação que o autor ergue sua narrativa, e é através da análise de seus elementos paratextuais que começamos a examinar a planta baixa deste universo memorialístico.

 

Em uma obra de memórias, os elementos paratextuais — capa, título, subtítulo, dedicatória — não são acessórios, mas a própria planta baixa do projeto memorialístico, o alicerce sobre o qual todo o edifício da recordação será erguido.

 

Eles estabelecem um contrato inicial de leitura, orientando o olhar e definindo as intenções do arquiteto. Em "Acari, Anos 40", essa fundação é construída com precisão e afeto.

 

O título, "Acari, Anos 40", opera uma dupla delimitação que é fundamental para a estrutura. A escolha do topônimo "Acari" ancora a narrativa em uma geografia específica, evocando o imaginário do sertão potiguar, enquanto o marcador temporal "Anos 40" restringe o foco a um período historicamente definido.

 

Juntos, nome e data funcionam como as pedras angulares, prometendo uma especificidade que recusa o genérico: não leremos sobre qualquer infância, mas sobre aquela infância, naquele lugar e naquele tempo.

 

A esse alicerce, o subtítulo acrescenta uma camada de profundidade existencial: "Minha Raiz, Meu Berço, Minha Referência". Esta tríade de substantivos eleva Acari da condição de mero cenário à de matriz fundamental da identidade do autor. "Raiz" aponta para a origem, o fundamento; "Berço" invoca o início, o acolhimento e a formação; "Referência" estabelece o lugar como um norte moral e afetivo que orientou toda uma vida. São os pilares temáticos que sustentarão toda a memória a ser edificada.

 

Finalmente, a dedicatória — "À Ana, minha esposa, e aos meus filhos e netos, o carinho e a admiração perenes." — vai além do gesto de legado familiar. Ao insculpir a obra no círculo de sua descendência direta, Ivanaldo Bezerra define a memória não como um artefato público, mas como uma forma de herança privada, um patrimônio íntimo a ser transmitido pela linhagem.

 

A moldura está completa, conectando o particular ao universal e preparando o leitor para a voz e as intenções que serão declaradas no corpo do texto. E todo texto memorialístico se funda em um "pacto autobiográfico", um acordo tácito no qual o autor promete ao leitor a sinceridade de seu relato, e o leitor aceita a subjetividade inerente à memória.

 

O autor, como se depreende, estabelece esse compromisso de forma explícita nos textos de apresentação e contracapa, revelando abertamente suas motivações e o tom de sua empreitada. A motivação para a escrita é apresentada como a culminação de um projeto de vida, ecoando a sabedoria popular de que é preciso "plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro".

 

Ao se dizer feliz por cumprir a "última condição" após uma "longa caminhada de mais de sete décadas", o escritor confere à letra um caráter existencial, posicionando o livro não como um passatempo, mas como o ato final e necessário de uma jornada.

 

A voz narrativa que emerge desses textos é inegavelmente sentimental, afetuosa e nostálgica. O autor não se furta a descrever seu processo com uma linguagem carregada de emoção, na verdade ele afirma que, para escrever, "debulhei emoções e fui buscar no fundo do baú das reminiscências".

 

No fio de suas reminiscências, emerge a figura de Basílio Ferreira da Silva (1867-1950), antigo senhor da Fazenda Garrotes. A propriedade, que fora domínio de Félix Araújo no século XIX, chegou às mãos de Basílio através da aquisição feita ao neto do fundador, Sóter Pereira, pela expressiva soma de vinte contos de réis.

 

Naquelas terras, impunha-se um amplo casarão com seus anexos, como a tradicional "casa de farinha", e requintes arquitetônicos que aguçavam a imaginação, a exemplo dos compartimentos secretos ocultos em suas janelas. Como particularidade que o tempo tornou única na região, havia ainda um relógio solar lavrado em madeira no terreiro da sede.

 

A fazenda destacava-se pela pujança de sua criação de gado da raça Polled Angus e pela vasta produção agrícola, nutrida pelas férteis vazantes do açude, que asseguravam uma notável abundância de víveres. O autor rememora que, em sua infância, seu pai, o Major Sátiro, costumava assombrá-lo em tom de brincadeira, invocando a figura do vizinho fazendeiro.

 

Este mesmo Basílio, homem idoso que amedrontava o menino, era, contudo, amigo de seu genitor e visitante assíduo em sua casa, nas Imburanas, propriedade contígua à Garrotes. O destino, porém, reservaria um desfecho singular a essa relação, pois o próprio Major Sátiro, movido por desígnios próprios, viria mais tarde a adquirir a Fazenda Garrotes, sob o nobre propósito de resguardar e perpetuar a herança original de seu primeiro dono, Félix Araújo.

 

A obra é definida como um conjunto de "pinceladas sentimentais e carinhosas do paraíso da nossa infância em Acari". Essa escolha vocabular não é casual; ela convida o leitor a compartilhar de um olhar que deliberadamente busca o belo e o terno no passado.

 

A metáfora mais poderosa utilizada pelo autor para descrever sua obra é a do "inesquecível caleidoscópio real". Um caleidoscópio funciona a partir de fragmentos que, refletidos e reorganizados, criam padrões belos e coesos.

 

O autor, contudo, não deixa essa metáfora no campo abstrato; ele nomeia os fragmentos que compõem sua visão: "o seu belo casario, personagens, costumes, religiosidade, brincadeiras e jornadas de estudos".

 

Esta lista é reveladora, pois detalha o que, para ele, constitui a essência de Acari e o que ele julgou digno de preservação: a arquitetura física (casario), o capital humano (personagens), a estrutura social (costumes), a dimensão espiritual (religiosidade) e as experiências formativas (brincadeiras e estudos).

 

A questão que se impõe, então, é como esse complexo caleidoscópio foi meticulosamente montado. E a escrita da memória raramente se baseia na lembrança pura.

 

É, na verdade, um complexo processo de construção que exige método e materiais diversos. Na "Apresentação" de seu livro, é perceptível a transparência quanto a esse processo, revelando uma metodologia híbrida que se assemelha ao trabalho de um construtor que une diferentes elementos para garantir a solidez da estrutura.

 

O processo de construção apoia-se em fontes distintas: O Material Bruto da Memória Pessoal, A Argamassa da História Oral e O Acabamento da Pesquisa Documental.

 

O ponto de partida são as "emoções, vivências e sentimentos que voltam à tona". Este é o material bruto e íntimo, a matéria-prima extraída diretamente da experiência vivida, que constitui o núcleo afetivo da obra.

 

O segundo ponto é consciente da falibilidade da memória individual, o autor utiliza a memória coletiva como argamassa para ligar e validar suas lembranças. As "inúmeras conversas com as minhas irmãs" e primas — Lina, Licinha e Tonita — funcionam como um mecanismo de validação e enriquecimento, onde as recordações de um complementam, corrigem e fortalecem as do outro.

 

Por fim, nesse terceiro ponto, temos o acabamento, que confere integridade estrutural e contexto histórico, buscando materiais públicos, recorrendo a "sites e blogs da internet" e, notadamente, a publicações de outros "escritores acarienses" como Paulo de Balá Bezerra, Geraldo Batista e Joselito Jesus de Araújo.

 

Este gesto não é apenas pesquisa; é um ato de reconhecimento que insere sua memória pessoal em uma tradição literária local. Essa abordagem metodológica confere à obra uma dupla dimensão, a de um testemunho íntimo e a de um documento com pretensões de registro histórico-cultural.

 

O agradecimento à irmã Inalda pela "revisão deste texto" é particularmente revelador, pois aponta para um processo cuidadoso de curadoria, no qual as memórias não são apenas evocadas, mas também organizadas e polidas.

 

O edifício da memória é, assim, erguido com o rigor de quem não apenas sente, mas também projeta.

 

Ao final desta análise, "Acari, Anos 40" revela-se uma obra cuja aparente simplicidade esconde uma sofisticada engenharia da memória. Os elementos paratextuais funcionam como o alicerce de um projeto de identidade e legado.

 

A voz narrativa, ao estabelecer um pacto autobiográfico sincero, convida o leitor a uma cumplicidade emocional. E a metodologia híbrida, que entrelaça o material bruto da memória pessoal, a argamassa da história oral e o acabamento da pesquisa documental, demonstra o rigor por trás da construção desse passado.

 

Reitera-se, assim, a tese de que "Acari, Anos 40" transcende a condição de álbum de recordações para se afirmar como um ato de engenharia cultural. É um edifício da memória, cuidadosamente projetado para resistir ao tempo, utilizando o passado como matéria-prima para afirmar uma identidade no presente e projetar um legado para o futuro.

 

Ao transformar suas reminiscências em um "inesquecível caleidoscópio real", Ivanaldo Bezerra de Araújo Galvão oferece não apenas a sua Acari, mas também um convite universal à reflexão sobre as nossas próprias raízes, os nossos próprios berços e as nossas próprias referências.

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